A rentabilidade econômica
das florestas plantadas frente às principais culturas agrícolas
da microrregião de Canoinhas-SC(1)
José
Sawinski Júnior
Professor M Sc do curso de Engenharia Florestal UnC Canoinhas
Este artigo faz
uma avaliação econômica das culturas do feijão,
do milho, da soja, do fumo, do pínus, do eucalipto e da erva-mate,
as mais cultivadas na região Planalto Norte Catarinense.
O objetivo é comparar alternativas de renda para o produtor
rural, confrontando as culturas de lavoura com as atividades florestais.
Não apenas as grandes empresas plantam florestas, mas também
o pequeno, o médio e o grande produtor vêm se dedicando
à atividade, principalmente este último, por ter mais
estrutura e capital.
A tabela 1 mostra a distribuição por estrato de área
dos 15.591 estabelecimentos agropecuários da região,
que possuem uma área total de 758.875 hectares.
Tabela
1 - Estrutura fundiária dos estabelecimentos agrícolas
da microrregião de Canoinhas - 1995
| Grupos de área total (hectares) |
Número de estabelecimentos
|
(%)
|
Área total (hectares)
|
(%)
|
| Menos de 20 |
8.738
|
56,00
|
76.838
|
10,12
|
| 20 a menos de 100 |
5.858
|
37,62
|
247.415
|
32,60
|
| mais de 100 |
995
|
6,38
|
434.622
|
57,28
|
| Total |
15.591
|
100,00
|
758.875
|
100,00
|
FONTE: IBGE.
Observa-se um elevado percentual
(56%) de estabelecimentos no estrato de menos de 20 hectares, os
quais ocupam apenas 10,12% da área total. No sentido inverso,
os proprietários da classe de mais de 100 hectares são
apenas 6,38% do total, mas detêm 57,28% da área.
A maior dificuldade para reflorestar para o pequeno produtor, é,
sem dúvida, , o longo período de retorno do capital
investido, pois muitas vezes a área disponível para
plantio acaba tomando espaço de uma cultura de subsistência,
como o feijão ou o milho, e isto torna difícil para
ele optar por uma atividade com retorno de longo prazo.
Atualmente, porém, está mais fácil para um
pequeno produtor implantar florestas do que há 10 anos, pois
existem programas de incentivo e fomento e estão surgindo
novas idéias, como o cooperativismo, que estão mudando
favoravelmente os aspectos culturais. O agricultor está deixando
de ser imediatista e os aspectos ambientais e conservacionistas
estão impulsionando a mudança de cultura, tornando
cada vez mais importante o componente florestal na sua realidade,
favorecendo a sustentabilidade da propriedade agrícola.
O governo e as empresas do setor florestal vêm incentivando
o cultivo de árvores através de programas de fomento
e de extensão florestal, com assistência técnica
gratuita e, em alguns casos, com doação de mudas.
Isto favorece a atividade, muito embora nem todos os agricultores
tenham condições de reflorestar e dar toda a atenção
necessária, como tratos culturais e manejo adequado, para
obter uma floresta de qualidade ao final do ciclo produtivo.
Devido ao grande valor que a madeira de pínus e de eucalipto
têm adquirido nos últimos anos, principalmente em função
da escassez de matéria-prima, muitos produtores estão
participando de programas de reflorestamento e se mostram conscientizados
da importância econômica da floresta cultivada. Para
a maioria desses produtores, existe uma atividade principal para
o sustento da família e da propriedade, ficando a floresta
como uma reserva de capital a ser utilizada no longo prazo.
É difícil de se prever com exatidão a rentabilidade
de uma atividade agrícola ou florestal, devido às
oscilações de preço e às variações
de produtividade a que estão sujeitas, porém, é
possível criar cenários plausíveis para a realidade
futura.
Para isso, foram realizadas simulações para as culturas
do feijão, do milho, da soja, do fumo, do pínus, do
eucalipto e da erva-mate, com base nos preços médios,
mínimos e máximos, tomando por base o período
de junho de 1996 a junho de 1999. O objetivo foi comparar a rentabilidade
das culturas florestais frente às lavouras tradicionais da
região de Canoinhas, levando em conta diferentes cenários
de preços, e com isso apontar a vantagem econômica
para os agricultores.
Uma das formas de fazer esta comparação é através
da relação benefício-custo - RBC. A RBC mede
quanto se ganha por unidade de capital investido num dado período
de tempo, tomando como referência um dado momento, em geral,
o presente.
De um modo bem simples, pode-se dizer que: investindo-se uma certa
quantia em determinado projeto, ao final do seu ciclo (período
de maturação) tem-se o retorno do investimento, em
valores de hoje, que poderá ser maior, menor ou igual ao
montante investido.
A análise da RBC, para efeito de aceitar ou rejeitar um projeto
de investimento, é feita em função da própria
recuperação do investimento, isto é, RBC =
1. Assim, tem-se que:
se RBC > 1 -------à o investimento é vantajoso
e aceita-se o projeto;
se RBC < 1 -------à o investimento não é
vantajoso e rejeitar o projeto.
Se a RBC for igual a um, não há excedente econômico;
desta forma, a aceitação ou rejeição
do projeto terá de ser avaliada sob outros aspectos, como
a taxa de juros e o ciclo de vida do projeto para decidir sobre
sua aceitação ou não. Quanto maior o valor
da RBC, maior o retorno do capital investido e vice-versa.
O gráfico 1 sintetiza os resultados da avaliação
das culturas selecionadas para análise. Como pode ser visualizado,
a cultura do pínus é, nitidamente, a que apresentou
a maior vantagem econômica pelo critério da RBC.
Gráfico 1 - Resultado da análise
econômica pela RBC

O pínus
é uma cultura com excelente retorno econômico, com
a vantagem de ter uma baixa utilização de mão-de-obra
e de insumos e apresentar receitas nas épocas dos desbastes
e corte raso(2) . Os sortimentos de madeira a serem
produzidos são para celulose, serraria e laminação,
de acordo com o diâmetro das toras.
Nos últimos tempos, o mercado vem remunerando bem a madeira
de pínus e há uma tendência de valoração
de preço, principalmente naqueles sortimentos em que ocorre
um melhor aproveitamento da madeira, que geram bons rendimentos
no pátio industrial. Mercados promissores de painéis
reconstituídos como MDF e OSB estão se fortalecendo.
O mercado de "clear" também se mostra promissor;
para este produto, é importantíssima a produção
de madeira isenta de nós, que permitirá um melhor
rendimento industrial. Para o mercado de "clear", a condução
de podas na floresta é fundamental para produzir madeira
isenta de nós, de melhor remuneração.
Para o pequeno produtor, o custo da poda é baixo e a valoração
que esta prática silvicultural dá à madeira
compensa a sua realização.
A cultura que apresentou o segundo melhor resultado, em termos de
RBC, foi a erva-mate, que, a partir do quarto ano, pode começar
a ser colhida e, consequentemente, gerar receitas. A partir do quarto
ano, a colheita poderá ser realizada anualmente. A erva-mate
necessita, porém, de solos com boas condições
de fertilidade e demanda mão-de-obra para limpezas periódicas.
Também pode ser consorciada com culturas agrícolas.
O eucalipto para serraria e energia foi a terceira melhor cultura
pela RBC. Apesar de existir uma tendência de crescimento do
mercado de madeira serrada de eucalipto, ainda há limitações
tecnológicas para seu uso, que dificultam o processamento
da madeira.
Estudos promissores estão sendo conduzidos com vistas a melhorar
a possibilidade de trabalhar e utilizar a madeira através
de técnicas para neutralizar as tensões no período
crescimento. Se isto for resolvido, o eucalipto poderá vir
a ser a "madeira do futuro".
A cultura da soja mostrou ser a quarta economicamente mais viável
pelo método da RBC. Porém, por ser uma cultura que
demanda tecnologia e mecanização, demanda, de acordo
com dados de pesquisa, uma área mínima de 40 hectares
, para que se tenha uma escala de produção compatível
para permanecer neste mercado. Como a realidade da região
de Canoinhas é composta por minifúndios, a soja tem
suas limitações.
O feijão foi uma cultura que apresentou grande variação
de preços no período, e apresenta-se como a quinta
melhor alternativa. É preciso que seja avaliada a questão
do risco para a cultura, visto que apresenta flutuações
de preço muito acentuadas, dependendo da época do
ano. Com esta cultura, o agricultor pode ter uma excelente receita,
mas pode também sofrer um grande prejuízo, não
cobrindo nem mesmo os custos de implantação. Tudo
está condicionado ao preço, e como este varia muito,
o produtor passa a contar com o fator sorte. Se a oferta for baixa,
o preço tende a subir e o retorno é otimizado, mas
o oposto também pode ocorrer; se houver superoferta, os preços
caem, afetando a rentabilidade. Outro fator que também deve
ser considerado é a entrada do produto no mercado local vinda
de outros mercados, o que causa aumento de oferta e novamente se
cria um cenário de queda de preço.
O milho, muito cultivado na região, aparece como a sexta
melhor cultura pela RBC. Apresenta flutuações de preço
e também é uma cultura de risco. Pelos preços
médios do período analisado, gera baixo retorno.
Alternativas de agregação de valor ao produto são
extremamente importantes, como, por exemplo, a comercialização
antes do ponto de maturação, visando suprir o mercado
de milho verde; este mercado, porém, é limitado e
deve ser bem dimensionado.
O fumo, de acordo com os dados deste trabalho, aparece como economicamente
inviável, apresentando resultados negativos pelo critério
RBC. Por ser uma atividade que demanda muita mão-de-obra
durante toda a sua fase de condução e principalmente
no momento de colheita e secagem, exige atenção total
do produtor neste momento. Quando são consideradas as horas
trabalhadas e todos os insumos necessários durante o ciclo
da cultura, observa-se que a margem de lucro é muito pequena;
em alguns casos pode haver até prejuízo para o produtor
se a classificação da qualidade da folha do fumo for
baixa.
Uma outra maneira de se fazer a avaliação econômica
de um investimento é pelo critério do Valor Presente
Líquido (VPL).
Segundo SOUZA & CLEMENTE (1999)(3) , o VPL
é, com certeza, uma técnica robusta de análise
de investimento mais conhecida e mais utilizada.
O VPL, como o próprio nome diz, nada mais é do que
a concentração de todos os valores projetados (esperados)
de um fluxo de caixa na data zero (momento inicial).
Fica evidente pelos dados da tabela 2 o excelente desempenho da
erva-mate frente às outras culturas. A erva-mate produz receitas
já a partir do terceiro ou quarto ano; partir daí,
elas são anuais e constantes até o 21º ano, período
estabelecido como ciclo de vida do projeto(4).
Tabela 2 - Análise econômica
das culturas com base no critério do VPL
| Cultura |
VPL (R$/hectares)
|
| Eucalipto |
880,84
|
| Pínus |
2.028,79
|
| Erva-mate |
5.363,51
|
| Milho |
1.178,02
|
| Feijão |
1.805,76
|
| Soja |
2.025,75
|
| Fumo |
-2.681,56
|
A erva-mate apresenta a desvantagem de demandar muitos insumos
e mão-de-obra para sua correta condução, o
que pode ser um fator limitante para o pequeno produtor. Outro fator
que vem sendo problemático é a ocorrência de
pragas (insetos), como besouro, conhecido popularmente como corintiano,
que vem destruindo muitos plantios de erva-mate na região
de Canoinhas. O custo para eliminar esta praga é alto e de
eficiência ainda duvidosa.
A soja se mostra uma das culturas mais economicamente viáveis
pelo método do VPL, mas, como já foi dito, necessita
de uma área mínima para ser implantada de forma viável
pelo pequeno produtor.
Pela análise apresentada, pode-se depreender
que, para o proprietário da terra que possua uma fonte de
renda e tenha um espaço disponível na sua propriedade,
o reflorestamento torna-se uma boa alternativa de geração
de renda, pois demanda pouca mão-de-obra para sua implantação
e baixos custos de manutenção, podendo servir como
fonte de capitalização de dinheiro a ser recuperado
no médio-longo prazo, a chamada "poupança verde".
Além da questão econômica mostrada no presente
trabalho, há a necessidade de se voltar o foco para o desenvolvimento
da política florestal: o produtor rural que detenha pequenas
áreas de terra deve estar inserido nesta política.
Muitos produtores têm interesse em reflorestar, mas, devido
a restrições da atual legislação florestal,
muitas vezes não conseguem a liberação de suas
terras para o plantio de árvores; falta-lhes a assistência
técnica devida e o comprometimento com a questão do
reflorestamento por parte dos técnicos ainda é pequeno.
A maioria dos órgãos de assistência técnica
do governo tem o foco voltado para a agricultura e a pecuária.
Poucos profissionais da área florestal trabalham nestes órgãos,
e isto contribui para o quadro atual, em que a grande parte dos
reflorestamentos é feita por empresas privadas do setor florestal,
sendo restrita a participação do produtor rural.
Os maiores entraves para a implantação de florestas,
segundo os produtores, são:
a) falta de área disponível, principalmente nas pequenas
propriedades;
b) período de retorno do capital (Pay Back Period) ainda
longo;
c) falta de uma visão mais clara do mercado futuro dos produtos
oriundos de florestas plantadas.
Na microrregião de Canoinhas, há um grande potencial
de crescimento do setor florestal, com várias indústrias
expandindo seu parque industrial. Porém, ainda há
um grande número de produtores rurais que precisam mudar
suas visões em relação ao reflorestamento.
É preciso que se incentivem mais os agricultores que se dedicam
à atividade. Com a participação do agricultor
no cenário florestal regional, haverá uma base florestal
maior no futuro, o que poderá atrair mais empresas do ramo
para a região, gerando mais emprego e renda.
(1)
Artigo baseado na dissertação de mestrado do autor,
José Sawinski Júnior, intitulada "Rentabilidade
econômica comparativa entre pínus, eucalipto e erva-mate
e as principais culturas agrícolas da microrregião
de Canoinhas/SC", defendida na UFPR em 04 de outubro de 2000.
José Sawinski Júnior é professor de Economia
e Administração Florestal da Universidade do Contestado
- UNC, campus de Canoinhas
(2)
No regime proposto por este trabalho, o pínus seria cultivado
em regime de três desbastes e um corte raso aos 21 anos.
(3)
Souza e Clemente - Decisões financeiras e análise
de investimentos - fundamentos, técnicas e aplicações.
3ª ed. São Paulo: Atlas. 1999. 142 p.
(4) Tendo em vista o
ciclo de rotação do pínus ser de 21 anos foi
este o horizonte de análise adotado para efeito da avaliação
comparativa aqui realizada.

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