Aspectos Socioeconômicos da Cultura da Cebola

Guido Boeing

Em Santa Catarina, a cebolicultura destaca-se como a principal ocupação hortícola, quer em termos de área de plantio, quer em volume colhido ou valor bruto da produção.

É praticada em mais da metade dos 293 municípios do estado, mas concentra-se, particularmente nos das microrregiões de Ituporanga, Rio do Sul e Tabuleiro; juntos, respondem por mais de 85% da área de plantio e da produção de cada ano agrícola.

Por ser cultura de exploração intensiva e concentrada, a propriedade dispõe de equipamentos de tração animal e mecânica, e infra-estrutura de armazenamento.

A mão-de-obra utilizada normalmente é familiar. Nos períodos de maior concentração de trabalho (transplante das mudas e colheita) são contratados serviços de terceiros.

É atividade de pequenos e médios produtores rurais. Absorve, segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 1995-1996, cerca de 18 mil agricultores (tabela 1). Destes, 78,4% são proprietários; o restante trabalha em regime de parceria, arrendamento ou ocupação.

TABELA 1 - CONDIÇÃO DO PRODUTOR DE CEBOLA – SANTA CATARINA – 1995-96

CONDIÇÃO DO PRODUTOR

NÚMERO DE INFORMANTES

(%)

Proprietário

14.178

78,4

Ocupante

1.758

9,7

Parceiro

1.386

7,7

Arrendatário

759

4,2

TOTAL

18.081

100,0

FONTE: IBGE. Censo Agropecuário – Santa Catarina, 1995-96.

ELABORAÇÃO: Instituto Cepa/SC.

 Com relação a estrutura fundiária do cebolicultor catarinense, o último censo revelou que, 30,6% dos estabelecimentos que cultivam cebola em Santa Catarina possuem menos de 10 hectares e 67,8% têm áreas que variam de 10 e menos de 100 hectares. Aqueles, por sua vez, ocupam 87,3% da área plantada com a cultura e respondem por 87,9% da produção colhida no estado, conforme pode melhor ser visualizado nas tabelas 2 e 3. O estrato de área compreendido entre 10 e menos de 100 hectares ocupa apenas 12,3% do total da área de colheita e contribui com 12,0% da oferta estadual do produto.

A estrutura fundiária do produtor catarinense de cebola, segundo o censo de 1995-96, apresenta-se conforme a tabela 2.

TABELA 2 - ESTRUTURA FUNDIÁRIA POR GRUPO DE ÁREA TOTAL - SANTA CATARINA – 1995-96

GRUPOS DE ÁREA TOTAL (ha)

INFORMANTES (número)

PARTICIPAÇÃO TOTAL (%)

PARTICIPAÇÃO POR ESTRATO (%)

Menos de 10

5.538

30,6

100,0

Menos de 1

83

0,4

1,5

1 a menos 2

212

1,2

3,8

2 a menos 5

1.771

9,8

32,0

5 a menos 10

3.472

19,2

62,7

10 a menos 100

12.251

67,8

100,0

10 a menos 20

6.196

34,3

50,6

20 a menos 50

5.102

28,2

41,6

50 a menos 100

953

5,3

7,8

100 a menos 1.000

287

1,6

100,0

100 a menos 200

204

1,1

71,1

200 a menos 500

66

0,4

23,0

500 a menos 1000

17

0,1

5,9

1.000 a mais

5

-

100,0

TOTAL

18.081

100,0

100,0

FONTE: IBGE. Censo Agropecuário – Santa Catarina, 1995-96

ELABORAÇÃO: Instituto Cepa/SC.

O último censo, mostrou, ainda, aumento da adoção de novas e mais modernas tecnologias produtivas, com destaque para a irrigação, as quais são as principais responsáveis pelo forte incremento registrado, nos últimos anos, nos índices de produtividade média e de produção colhida no estado. Revelou que 75,0% dos produtores adotam técnicas de cultivo recomendadas, especialmente o uso de fertilizantes e defensivos, as quais englobam praticamente a totalidade da área plantada com a cultura no estado.

 TABELA 3 - ESTRUTURA FUNDIÁRIA POR GRUPO DE ÁREA DE COLHEITA – SANTA CATARINA – 1995-96.

GRUPOS DE ÁREA TOTAL (ha)

INFORMANTES (número)

PARTICIPAÇÃO TOTAL (%)

PARTICIPAÇÃO POR ESTRATO (%)

Menos de 10

17.866

87,3

100,0

Menos de 1

10.173

4,2

4,9

1 a menos 2

2.694

13,4

15,4

2 a menos 5

4.102

46,9

53,7

5 a menos 10

897

22,8

26,0

10 a menos 100

214

12,3

100,0

10 a menos 20

191

9,4

76,9

20 a menos 50

21

2,4

19,3

50 a menos 100

2

0,5

3,8

100 a menos 500

1

0,4

100,0

100 a menos 200

1

0,4

100

TOTAL

18.081

100,0

100,0

FONTE: IBGE. Censo Agropecuário – Santa Catarina, 1995-96

ELABORAÇÃO: Instituto Cepa/SC.

 Os agricultores que trabalham a cultura da cebola na grande região produtora do Alto Vale do Rio Itajaí, que concentra as nas microrregiões de Ituporanga. Rio do Sul e Tabuleiro, conforme já observado, são, em sua maioria, proprietários e têm como principal atividade a cebolicultura. Cultivam também o milho, o feijão, o fumo, a mandioca e outras olerícolas; além de produtos para a auto-suficiência, exploram a bovinocultura de leite e a piscicultura de água doce. O milho e o feijão são cultivados principalmente em sucessão, visando ao aproveitamento da adubação residual da cultura da cebola.

A grande maioria possui imóvel rural com área inferior a 20 hectares e cultiva entre 1 e 2 hectares de cebola/ano. A densidade de cultivo mais comumente empregada, varia de 150 mil a 330 mil plantas por hectare; os tratamentos fitossanitários são feitos normalmente quando aparecem danos provocados por doenças fúngicas e pragas; eventualmente realizam-se tratamentos preventivos. A tração motora e a prática de irrigação são muito utilizadas na região. Os cebolicultores são sensíveis à adoção de modernas tecnologias de produção e à utilização de insumos modernos. A mão-de-obra empregada é, normalmente familiar e somente nos períodos de maior concentração de trabalho são contratados os serviços de terceiros. Por ser cultura de exploração intensiva e concentrada, a propriedade dispõe de equipamentos de tração animal e mecânica.

A propriedade ceboleira catarinense dispõe de infra-estrutura de estocagem. São armazéns convencionais, com aeração natural, construídos em locais bem ventilados e com exposição contínua ao sol. Algumas unidades produtoras dispõem de armazéns com ar forçado, os quais utilizam um conjunto de motoventilação, onde o ar é forçado a passar através do produto, permitindo o controle da temperatura e da umidade do armazém.

A semeadura da safra catarinense realiza-se desde o final do mês de abril até meados do mês de junho; o transplante das mudas, de julho a final de setembro. A comercialização ocorre no período de novembro a maio/junho de cada ano, com intensificação nos meses de fevereiro e março, quando normalmente cerca de 50% da produção é comercializada.

Em vista do grande volume da colheita estadual, o bulbo produzido no internamento necessita ser submetido a um longo período de estocagem, a fim de se dar equivalência aos níveis mensais de oferta e de demanda. Nesse processo ocorrem perdas físicas significativas do volume colhido. Apesar de não se dispor de informações precisas acerca dos danos verificados no período pós-colheita e de armazenamento em Santa Catarina, sabe-se, todavia, que são elevadas, em razão do longo período de comercialização; pelas estimativas do Instituto Cepa/SC, com base nas informações de técnicos, produtores e comerciantes, situam-se em torno de 25% da produção bruta estadual de cada ano agrícola.

As informações disponíveis acerca da cultura em Santa Catarina, mostram que já na década de 40 ela era praticada no estado, tendo atingido, na safra 1946/47, uma área de 1.106 hectares e uma produção de 2.185 toneladas.

O rendimento médio naquele ano foi de 1.976 kg/ha. Nos anos imediatamente subsequentes, sempre registrou pequenos aumentos de área. Merece destaque, todavia, o aumento verificado na produtividade média, que já na safra 1950/51 superava os 4.000 kg/ha e os 6.000 kg/ha na safra 1965/66.

Na safra 1980/81, entretanto, registrou-se a grande corrida para a cebola, resultante de um mercado excepcionalmente favorável no ano de 1980. Nesse ano, a área cultivada passou para 17 mil hectares, e a produção, para aproximadamente 152 mil toneladas. Nos anos seguintes, assistiu-se a constantes aumentos de área e de produção (principalmente em decorrência das boas condições de mercado e da aceitação do bulbo catarinense), sendo que as eventuais reduções decorreram ou de problemas de ordem climática ou de situações de mercado nem sempre propícias. Mais recentemente, de extraordinários ganhos de produtividade média, em vista da adoção de novos padrões de tecnologia produtivas.

A evolução apresentada pela cultura em Santa Catarina é mostrada na tabela 4.

TABELA 4 - EVOLUÇÃO DA CULTURA DA CEBOLA EM SANTA CATARINA

SAFRA

ÁREA PLANTADA (ha)

PRODUÇÃO COLHIDA (t)

RENDIMENTO OBTIDO (kg/ha)

1946/47

1.106

2.185

1.976

1950/51

2.022

8.235

4.073

1960/61

3.215

11.294

3.513

1970/71

3.164

18.458

5.834

1980/81

16.872

151.809

8.998

1990/91

27.024

288.988

10.694

1995/96

24.294

226.445

9.321

1996/97

24.715

259.755

10.510

1997/98

24.600

272.700

11.085

1998/99

21.806

348.630

15.988

1998/00

24.241

456.036

18.813

FONTE: IBGE.

ELABORAÇÃO: Instituto Cepa/SC.

Ocupando apenas a quarta colocação entre os maiores estados produtores e respondendo por somente 6,47% da oferta nacional no período 1970-72, o estado catarinense mostrou um crescimento significativo neste cultivo, passando a ter lugar de destaque na produção brasileira de cebola. A partir do ano de 1986 passou a ocupar a segunda posição entre os principais ofertantes do bulbo; de 1990 a 96 alternou com o estado de São Paulo a primeira colocação na colheita nacional do produto e desde o ano de 1997 é o principal produtor brasileiro, com ofertas que têm superado o elevado percentual de 40% da oferta interna.

A propósito, o aumento registrado no montante da produção brasileira é reflexo direto do crescimento da produção catarinense, conforme observado no gráfico a seguir, de vez que na maioria dos demais estados produtores a oferta tem registrado decréscimo, seja em função de problemas de ordem climática, seja relacionados aos preços de comercialização.

Na última safra oficializada, relativa ao ano agrícola 99/00, os números revelados pela cultura em Santa Catarina foram, mais uma vez, extraordinários.

 O total da produção estadual, segundo o IBGE, totalizou aproximadamente 456,0 mil toneladas. Um novo recorde na oferta estadual do produto que se mostrou quantitativamente superior em 107,4 mil toneladas em relação à colheita da safra 98/99. A área somou 24.241 hectares e a produtividade obtida, 18.813 kg/ha.

Diante deste resultado, Santa Catarina confirma, pelo quarto ano consecutivo, o destaque de principal produtor nacional de cebola, com a expressiva participação de 39,9% do total da produção brasileira.

O comportamento da produção catarinense nos últimos apresentou-se conforme o gráfico a seguir.

 

O extraordinário crescimento da produção estadual, conforme demostrado no gráfico que segue, tem sido reflexo direto dos excelentes ganhos de produtividade média, haja vista que os valores de área plantada têm-se apresentado de certa forma estabilizados.

 

Não obstante o elevado volume de oferta catarinense dessa safra, a comercialização da produção transcorreu de forma excepcional, graças a excelente qualidade do produto colhido, beneficiado por condições climáticas favoráveis e por uma maior conscientização do produtor nos aspectos relacionados aos padrões de beneficiamento e classificação do bulbo.

O preço médio ponderado, recebido pelo produtor catarinense alcançou R$ 5,13/sc de 20 quilos e foi 10,3% maior que o valor obtido na safra 98/99, apesar do volume ofertado ter superado em mais de 10% o total das vendas do ano anterior. Apresentou-se evoluído em mais de 90%, relativamente ao custo de produção da cultura e movimentou para o Estado recursos que totalizaram o extraordinário montante de R$ 82,1 milhões.

O comparativo dos preços recebidos pelos cebolicultores nas duas últimas safras em Santa Catarina é mostrado no gráfico a seguir.

Os valores de comercialização registrados em nível de produtor estadual, têm sido, a propósito, os principais responsáveis pelo extraordinário crescimento da atividade em Santa Catarina, de vez que invariavelmente determinam margens de lucratividade extremamente elevadas, comparativamente aos custos variáveis de produção, os quais atualmente situam-se entre R$ R$ 2,67 e R$ 3,01/sc de 20 quilos.

A propósito, os custos de produção de cebola, no cultivo convencional com microtrator no Alto vale do Itajaí, para uma área média de 2 hectares e rendimento médio de 12.000kg/ha (para 2001, este rendimento passou a ser de 15.000 kg/ha, usando cultivo mínimo com microtrator), variaram 26,21% (custo variável) e 23,42% (custo total) entre 1997 e 2001. Cabe salientar que este foi o período escolhido para fazer a análise, tendo em vista que fora dele houve alterações na metodologia de cálculo do custo de produção pelo Instituto Cepa/SC.

Por outro lado, a variação nos índices de preços recebidos pelos produtores de cebola e dos outros principais produtos agropecuários (geral) foi bastante superior: 98,71% e 41,60%, respectivamente (Gráfico 5).

Já a variação nos índices inflacionários do País para o mesmo período (1997 a 2001) - IGP-DI e IGPM, ambos calculados pela Fundação Getúlio Vargas, foi de 53,38% e 54,13%, respectivamente.

Através destas informações, pode-se concluir que os produtores de cebola tiveram ganhos reais com a venda de seus produtos neste período, já que a variação nos custos de produção e nos índices inflacionários do País estiveram significativamente abaixo da variação no índice de preços recebidos por eles.

O valor bruto da produção da cebola oscilou bastante entre 1994 e 2000, como pode ser visto no gráfico 6 No ano 2000 chegou a seu pico, atingindo 131.460 mil reais. O índice de produtividade da cultura esteve em constante elevação a partir de 1997. No ano 2000, praticamente dobrou a produtividade, se comparada ao ano base de 1985 = 100. Esta informação pode ser mais bem visualizada na página X desta publicação.

 

Em nível nacional, os dados do desempenho da cebolicultura brasileira, correspondente ao ano agrícola 99/00, revelaram, mais uma vez, a exemplo do registrado na safra anterior (gráfico 7), crescimento do volume da produção colhida, apesar do recuo da área plantada.

De acordo com as últimas avaliações oficiais, a colheita dessa safra totalizou aproximadamente 1.141.8 mil toneladas, ou seja, mostrou-se evoluída em 15,5%, comparativamente ao volume alcançado na safra 98/99. O total da área plantada somou 66,4 mil hectares e a produtividade obtida, 17.192 kg/ha.

O comportamento dessa safra, por estado produtor, é mostrado na tabela a seguir.

 TABELA 5 - ÁREA PLANTADA, PRODUÇÃO E RENDIMENTO DA CEBOLA NO BRASIL - SAFRA 99/00.

ESTADO PRODUTOR

ÁREA PLANTADA (ha)

PRODUÇÃO COLHIDA (kg/ha)

RENDIMENTO OBTIDO (kg/ha)

Santa Catarina

24.241

456.036

18.813

São Paulo

10.620

272.560

25.665

Rio Grande do Sul

16.603

181.621

10.939

Bahia

4.518

74.667

16.527

Minas Gerais

2.071

55.556

26.826

Paraná

5.200

52.800

10.154

Pernambuco

3.163

48.573

15.357

BRASIL

66.416

1.141.813

17.192

FONTE: IBGE.

ELABORAÇÃO: Instituto Cepa/SC.

Dados sujeitos a modificações.

O resultado desta safra ratifica o comportamento que se vinha verificando nos últimos anos, de recuo da área plantada e, a partir das duas últimas safra, forte crescimento da produção brasileira (vide gráfico a seguir), face ao extraordinário ganho de produtividade média. Apenas neste cultivo apresentou-se evoluído em 16,2%, comparativamente ao rendimento da safra anterior.

Em vista do aumento da produção nacional e, sobretudo, dos ganhos apresentados pela atividade em Santa Catarina, os volumes de importação registrados no ano de 2000 reduziram-se substancialmente.

As aquisições brasileiras totalizaram apenas 75,1 mil toneladas, ou seja, apresentaram um recuo da ordem de 66,5%, comparativamente ao volume importado no ano passado.

O produto importado foi internalizado no Brasil a um preço médio de US$ 0,18/quilo e o montante adquirido representou um custo para o País de aproximadamente US$ 13.115 mil. Embora considerável, o valor das importações desse ano situou-se 47,4% menor que o despendido no ano de 99, apesar do preço unitário de apenas US$ 0,11/quilo registrado naquele período.

O comportamento das importações brasileiras nos últimos anos apresentou-se conforme o gráfico a seguir.

  Preços diários de Santa Catarina

 Sintese Anual da Agricultura de Santa Catarina 2006-2007